quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Odeio-te

Era seu segundo cigarro e eu já estava totalmente fora de lucidez. A forma que ele movia sua língua ao falar já incitava-me mil pensamentos de prazeres escondidos por trás dessa boca avermelhada, que era contornada por uma barba que pedia para roçar seu todo seu áspero contra minha maciez...
A forma que ele me olhava. Eu sei o que ele queria dizer, seus olhos eram mais explícitos que sua boca rítmica. A forma que me delineava com os olhos negros parecia carvão em brasa, ardendo de desejo.
Ele largou o cigarro no parapeito da sacada, e fitou-me abertamente. A luz do luar banhava-o branco, e refletia naquele traje tão formal, a luz cintilava em seu cabelo negro rebeldemente ondulado, e ele disse tão calmo quanto a noite sem estrelas que estava estampando o céu por trás dele:
-Posso saber por quê a dama de tão extrema formusura está sozinha na sacada?
Olhei-o inexpressível:
-Talvez pelo mesmo motivo que vossa senhoria esteja cuidando da vida alheia.
Ele sorriu com o canto esquerdo da boca, apenas levantando levemente, e soltou uma pequena risada -feito tosse - e tocou-me a face:
-Ora, vamos lá, eu a vi fitando-me em soslaio.
Ele disse com um certo ego, e eu apenas o encarei com um falso escárnio. Como desprezar aquele rapaz, que mais parecia homem no ato de falar, fumar, gesticular? Com aquele riso mau que me estremece entre as pernas e aquele gesticular tão atrativamente mau que mais parece devaneio.
-Será que uma dança faria a senhorita mudar seu ponto de vista sobre mim?
-Impossível, tua fala já é toda de más intenções.
Rapidamente, ele se aproximou de mim, e antes que eu percebesse, seus lábios estavam colados no meu ouvido, de ímpeto sussurrou com o hálito quente arrepiando-me delicadamente:-
-Ora, vamos. Não lhe farei mal...
*Assenti receosa, e logo, pegou-me pela cintura e colou-me no teu corpo . A pressão entre nossos corpos era tanta que podia sentir seu coração batendo forte no ritmo da música que vinha do salão de festas. Minha mão pousou na sua nuca pálida e cintilante da lua, e apenas por sentir a maciez da sua pele quente, fechei as pálpebras em deleite.
Depois de alguns passos, a música já havia parado de tocar, e éramos embalados unicamente pelo ritmo de nossos corações exaltados.
Embora ambos não admitissem, a cada passo, a cada pressão, a cada inusitado toque, nós queriamos mais e mais.
Rodopiou-me levemente pela sacada e logo roçou a barba áspera nas minhas bochechas coradas. Sorri ainda com as pálpebras em deleite , e enfiei a mão dentre seus cachos negros banhados por um branco cintilante. Logo suas mãos derraparam-se por minhas costas e pousei então meus lábios no seu queixo, e pude sentir o gosto másculo daquele áspero sedutor que a tanto tempo chamava-me para lhe sentir, lhe provar, lhe degustar, lhe devorar.
Logo, larguei-o e saí em um rodopio solitário, sorri ironica e ele correspondeu com seu riso-de-lado-esquerdo:
- Ainda odeia-me?
-Odeio-te.
Ele se aproximou de forma que eu ficasse outra sem saída a não ser seus lábios, perguntou em sussurro:
-Odeia-me?
Caminhei lentamente para trás, até colar as minhas costas contra o parapeito da sacada:
-Odeio-te.
Com os lábios á poucos centímetros do meu, eu respirava o ar quente que ele expirava, e continuou:
-Odeia-me?
Estiquei o braço sobre o parapeito e peguei o cigarro que ele havia pousado. E perguntou novamente, o mais perto possivel de mim:
-Odeia-me?
Pousei levemente meus lábios nos seus, permaneci levemente por algum tempo, e logo empurrei-o para longe de mim, e disse entre uma profunda tragada no seu próprio cigarro:
-Odeio-te.
Com certa decepção, nos encaramos por longos segundos, e ofereci seu cigarro para ele. Ele abaixou minha mão esticada, e disse seco:
-Estou tentando parar de fumar.
Aproximei-me mansa, e disse:
-Estou tentando para de te odiar.
Nos beijamos.

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Saberia


A noite era escura e ainda sim conseguia encontra-lo pelo tato. Conseguia encontrar-o pelo seu cheiro, que sentia tão de longe, tão forte, tão intenso. Que me tocava leve e percorria a curva do meu quadril, e senti suas costelas tremendo, como se estivesse rindo, rindo baixo, rindo feliz. Depois enrosquei as mãos dentre seus cachos avermelhados e levemente, senti sua respiração quente junto a minha, frente á frente, estavam os lábios, tão vermelhos e sedentos, seria a primeira vez que eles se tocariam. “Eu jurava que não iria fazer isso” Repetia mentalmente para mim mesma. Mas antes que pudesse tomar alguma atitude, senti o úmido dos seus lábios contra os meus, correspondi. E então a noite nos engoliu e eu o devorei.
Acordei enrolada nos lençóis de linho branco, enquanto tocava Jobim suavemente na sala-de-estar. Recolhi-me me deleitei com o cheiro dele no travesseiro que apoiava meu rosto avermelhado, o cheiro que havia tão bem provado e que agora traz um leve -grande- arrependimento. Não posso passar da segunda taça de vinho que caio em tentação. Mas justo com ele? Com meu melhor amigo? Não poderia imaginar como seria desde então, desde que trocamos nossas salivas, a fidelidade e confiança da nossa amizade estaria sob risco, tão maleável. 
Vesti-me e caminhei silenciosamente até a cozinha, onde pude ver sua silhueta e seu olhar em soslaio para mim, depois virou-se e esticou as mãos, segurando uma tigela amarelada: 
-Seu café-da-manhã. -Ele disse calmo, tão calmo quanto os dias que ia dormir em sua casa. Ficávamos até de madrugada conversando sobre os meus namorados e pedia conselhos amorosos para ele, depois caía em prantos ao lembrar-me dos que me fizeram sofrer, e dormia com os olhos úmidos no seu ombro. 
-Meu cereal preferido. -Sorri satisfeita, um pouco envergonhada. Outrora haviamos trocado tanto amor, e agora apenas palavras vazias.
-Te conheço desde sempre, lembra-se? -Ele disse com um quê de lógica.
-Se me conhecesse tanto, saberia. -Disse baixo, mas realista.
-O que?
-Nada, estava apenas pensando alto. 
-Diga, saberia o que? -Ele fitou-me insistente.
-Nada. - Disse encarando a tigela.
Ele atravessou a cozinha, e sem que eu percebesse, segurou meus braços e virou-me de forma que eu o olhasse em seus olhos:
-Diga. -Ele disse calmo.
-Esta noite foi muito estranha, esse café-da-manha está estranho, tudo está sendo estranho, ontem a noite estávamos rolando juntos e hoje você simplesmente me dá meu cereal preferido sem nenhum problema e conversa comigo como se ontem a noite eu viesse vindo ver A Bela e a Fera com você, e tivesse caído no sono, somente isso. E é estranho, não aconteceu isso, e era o certo ao acontecer. Estou um pouco confusa, aliás, completamente confusa. Que diabos está acontecendo? Não que eu queira que você me mime como se fossemos namorados, mas é estranho, não era para ter acontecido. Não quero que nada mude entre nós, eu te conheço á tanto tempo e…
-Não - ele interrompeu- Você não me conhece tão bem como diz. Se conhecesse, saberia.
-Saberia o que? 
Ele fitou-me derrotado, e disse em forma de suspiro: 
- Que eu te amo. 
Em seguida, senti aquela maciez úmida novamente contra meus lábios, e coloquei meus braços envolta do seu pescoço, sussurrei vencida: “Saberia que eu te amo”.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Leitura dos olhos.





Quando ela segura a taça de vinho sorrindo á toa, e olha involuntariamente para mim, vejo algo a mais naqueles olhos escuros. Aqueles olhos tão fundos e misteriosos, como aquela parte do oceano onde afundou o Titanic. Quantos segredos aqueles fundo oceano negro guarda? 
E é involuntariamente que vejo seus olhos gritando o que sua boca -sempre cor de vinho tinto- nunca tem coragem de dizer, mas aquele seu pequeno coração sempre grita para seu interior. Grita alto, profundo, grita até a garganta sangrar, mas mesmo assim, sua boca nunca consegue pronunciar. 
Mas aqueles olhos negros diz claramente o que quer. Quando aqueles olhos sempre me olhando em soslaio se cruza com meu curioso olhar, vejo uma umidade tornando aquele oceano negro um verdadeiro oceano.
Ela diz coisas engraçadas, como se fosse a maior piadista da cidade. Dança nos bares e chama todos os rapazes para lhe acompanhar numa dança agitada, ou lenta. Enfim, nem imaginam que ao inves de se jogar na pista de dança, ela se joga no sofá, afunda sua face numa das camisetas que eu deixei em sua casa, e relembra -amargamente- o meu cheiro - que ela sempre gostara, e sentia saudades-. 
Quem a vê sempre cozinhando para suas visitas, massas, doces, salgados, sempre com o avental sujo e um sorriso esboçado no rosto, nem imagina que seu jantar é enlatados e sempre encomendados. Quem a vê sempre descobrindo e desenvolvendo novas receitas, nem imagina nossos sabados á noite. Jantares trazidos por motoristas e produzidos após uma ligação. Não perdíamos tempo cozinhando, usamos esse tempo pra nos degustar, nos devorar. A cozinha ficava em segundo plano (ou como cenário, dependendo da situação).
Quem a vê sempre sorrindo com sua boca cor de vinho tinto, não lê seus olhos, que quando cruza com o meu, grita coisas que só o coração pode ouvir.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Pulmão


Ele estava sentado no banco branco em baixo das laranjeiras do parque da cidade, sem hesitar, ao ver mais um daqueles mapas de mortes, ao ler o jornal, ele acendeu um cigarro e o levou até a sua boca ressecada.
Ela chegou de mansinho, quieta e vestida de preto, sentou-se ao seu lado. Cochichou com seu halito quente na orelha fria dele:
-Me trague como um desses seus cigarros, quando fechas os olhos de prazer ao sentir a fumaça escurecer teu pulmão. Deixe eu ser seu vicio mortal. Me tenha, me use, enlouqueça e morra. Devagar. Titubeando. Morra me sentindo dentro do seu pulmão.
Ela sempre tinha as ideias mais loucas. Mas as mais prazerosas. (…)

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Casulo


-Tá frio, sente-se mais perto. -Ela disse com um gesto de chamada á ele.
-Assim está bom? - Ele sentou-se na cama, do lado dela.
-João, na infancia, você brincava de casulo? -Ela disse envolvida no cobertor laranja.
-Casulo? - Sua face se tornou um claro ponto de interrogação.
-Me abraçe. - Clara disse com a voz fraca, e a cabeça baixa.
Sem hesitar, João subiu calmamente na cama, e ao chegar perto dela, sorriu. O cheiro que seu corpo exalava era um atrativo, uma tentação irresistível para ele. Clara continuou com o olhar baixo, encarando o chão, e olhando em soslaio o sorriso satisfeito de João. Ele a abraçou de mansinho, mas milimetricamente afastado dela. Ela abriu os braços -para o susto dele- e o envolveu num abraço muito maior, muito mais apertado, e enrolou o cobertor entre os dois.
-Eis o casulo. -Disse João com um ar de pensador.
-Quem sabe, quando eu te soltar, você vire uma bela borboleta. 
-Prefiro ser uma larva pelo resto da vida, do que te tirar dos meus braços. - Não soou sedutor, mas sincero.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Couro






Menino, pare com esse sorriso nonsense, esse gesticular exagerado ao falar. Pare de me prender a cintura e morder minha nuca. Pare de dizer frases que tira de romances baratos cheio de promessas e palavras grandiloquentes. Aí me olhas e me derreto feito mel, toda doce esperando tu me saborear por inteira. Por metade. Nem saborear, ao menos me tocar. Beijar. Ou apenas sorri para mim com aquele ar rock n'roll que me deixa louca de curiosidade. Curioso seu jeito tão cheio de estilo. Quem és de verdade? Qual é a cor dos teus olhos debaixo desse pelo par de oculos escuros? O que sente o coração dentro do peito tampado por esse couro?
Ah, o couro. Tens um cheiro de couro, que só de passar ao meu lado já deixa tua marca. Esse couro bom, misturado com seu cheiro de homem, de barba mal-feita, que me arranha, desaranha, anha, aranha, manha, cama, trama, drama. Te espero, mas não me chama…
Me desaruma, me deixa maluca. Diz coisas sem sentido, quando perco meu teto, cochicha quentinho no meu ouvido: “Quem perde o teto ganha as estrelas”. Que, mané estrelas?! Com teu gosto tão perto do meu rosto, com esse arrepio que sua voz sedutora me causa, tu achas que estou me importando com as estrelas? Contanto que tenha você, sei que posso ver estrelas até na claridade do dia.
Mesmo que eu não diga com todo esse seu estilo nosense, com um cigarro nas mãos e um sorriso nos lábios, tento, de qualquer forma, te ter para mim.
Nem me venha dizer que teu couro é concorrido, que teus lábios conhecem os mais loucos venenos e que tu não sabes ser de alguém, não sabe nem pertencer á ti proprio. Nem me venha com esse papo i don’t care cheio de estilo e bebidas. Nem me venha vestido de couro. Porque eu sei, muito bem, que por debaixo de todo esse i don’t care, você só precisa se encontrar. De alguém que te ajude á te encontrar. Eu te ajudarei. E depois que se encontrar, eu irei te encontrar. Aí tirarei teu couro e irei ver a sua verdadeira pele clara que sempre escondia.



segunda-feira, 18 de julho de 2011

Bonito


Bonito era o jeito que eles conversavam. Bonito era quando algo dava errado e eles diziam “Daqui cinco anos iremos estar rindo dessa situação”. Bonito era o jeito inocente que eles viam o futuro. Bonito era o jeito que ele á fazia rir sem parar. Bonito era o jeito que eles escreviam cartas um para o outro. Bonito era o jeito que ele fazia cócegas e ela gritava para ele parar, rindo. Bonito foi o primeiro beijo deles. Bonito era quando ela o enchia de textos. Bonito era quando ele a enchia de músicas. Bonito era quando eles cantavam juntos, no telefone, no meio da multidão, no cinema, em qualquer lugar. Bonito era a marca de sorvete que ela fez no rosto dele. Bonito era o abraço deles. Bonito era quando ela chorava de amor e ele chorava de felicidade. Bonito era quando ele beijava a testa dela. Bonito era quando os dois passavam as madrugadas contando segredos, confidentes. Bonito era quando ele sentia ciúmes. Bonito era quando ela escrevia textos inspirados somente nele. Bonito era a suavidade do seus beijos. Bonito era quando eles jogavam o “jogo do sério” e ele sempre a fazia perder, ele a fazia rir misteriosamente. Bonito era quando o cheiro de um grudava na roupa do outro. Bonito era quando o gosto da boca de uma se hospedava na boca do outro. Bonito era quando ela lhe ensinava palavras novas. Bonito era quando ele a fazia gostar de outras músicas. Bonito era a forma que ela colocava poesia em qualquer momento, e sempre tinha uma frase do Caio Fernando Abreu para descrever o momento. Bonito era quando ele a beijava de ímpeto. Bonito era a letra dele. Bonito era quando ele a provocava. Bonito era quando ele sempre caia nas provocações dela. Bonito era a bagunça que eles faziam comendo açaí. Bonito era a forma que ele indagava: “Como você me aguenta? Tão grudento, passo o dia em cima de você, não te solto por nada!” e ela pensava consigo: “Não solte por nada.”. Bonito era quando ele sonhava com ela -ás vezes-. Bonito era quando ela sonhava com ele -frequente-. Bonito era quando eles tinham momentos de nostalgia. Bonito era ela cantando músicas infantis e ele rindo encantado. Bonito era quando eles faziam boca de peixinho e se beijavam. Bonito eram as promessas de eternidade. Bonito era a preocupação enorme que um tinha sobre o outro. Bonito foram os encontros, do primeiro até o ultimo. Bonito era quando ela lia seus textos para ele. Bonito era quando ele cantava suas canções para ela. Bonito foi quando ela chorou ao ler a música que ele fizera para ela. Bonito foi quando ele chorou quando ela leu o texto que fizera para ele. Bonito era as lágrimas doces que um provocava no outro. Bonito eram os sorrisos que um esboçava no outro. Bonito era a amizade, confiança e fidelidade dentro do amor.
Fisicamente, ele era bonito, sua pele clara contrastava com seus cachos negros e sua boca vermelha. Ele a achava bonita. Eles eram bonitos, enfim.
Mas bonito mesmo, era o amor dos dois. Não havia beleza maior do que o olhar de admiração em que os dois se olhavam. A verdadeira beleza, não se vê com os olhos, mas se vê, se sente com o coração.

domingo, 17 de julho de 2011

Tal do "Amor"


Amor? Mas enfim, o que é esse amor? Esse amor que encontro em todos os cantos, todas as músicas, todos os livros, todos poemas, todas as bocas. “Amor é aquilo que te faz sentir frio na barriga”, “amor é se sentir nas nuvens” e ao passar do tempo, de tantas frases e textos formulados, prontos e embrulhados, acabamos sem saber o que realmente é amor. Só conhecemos o clichê melo-romantico.
Lá estava eu, uma menininha apaixonada perdida dentre palavras, textos, prosas e poesias cheias de “amor”, “amor”, “amor”. Mas o que é, raios, esse tal de “amor”? Como posso distinguir o que sinto, como posso saber se é isto o que sinto, se não sei o que é amor. 
Procurei manual de instrução, tentei ler bula, passei dias nas bibliotecas, ouvi todos os velhos vinis, mas nada de escreverem, cantarem, explicarem, certamente, o que é amor.
Como eu poderia saber que estava sentindo “amor”? Como poderia dizer convicta á ele “Eu te amo”, se sequer, sabia o que era “amor”?
Eu sentia uma coisa bonita por ele, não sabia descrever o que era. Uns diziam ser paixão, outros deduziam ser amor… Eu só sabia que era bonito, desejável, uma paz, uma felicidade. Tudo nele me encantava: Sua forma de rir, seu queixo áspero, sua boca vermelha como cerejas no verão, seu canto suave como o canto de pássaros no despertar, seu toque que me arrepiava como uma corrente elétrica de querer, seu cabelo cacheado cheio de caracóis macios, onde eu insistia em passar o dia fazendo cafuné, o contorno do seu rosto e a forma em que ele delineava minha boca com seus dedos longos e magros. Dedos conjuntos de uma mão maior que a minha, que apertava minha cintura enquanto contava segredos de liquidificador na minha orelha que sempre era enfeitada com brincos de perolas. 
Sentia essa coisa bonita, e sem nome especifico, decidi chamar de “amor”.
Até que um dia, estávamos frente á frente, corpo com corpo, boca com boca. Interrompi o beijo suave que seus lábios sedentos me presenteavam, olhei fixamente em seu olhar meigo contornado por grandes cílios -o que firmava sua meiguice- e disse “quero te dizer algo”. Ele assentiu.
Tirei da minha bolsa florida, um pequeno papel de rascunho, uma folha rasgada e mal caprichosa, mas cheia de verdades. Começei á ler, e parava em cada vírgula para olha-lo:
“Pode ser que daqui alguns anos, não estejamos juntos. Pode ser que daqui um longo tempo, nossos planos de eternidade mudem. Mas quero que saiba, que vou lutar a cada segundo por ti e pelo o teu amor. Quero que saiba, que nunca ninguem me fez tão feliz, tão completa quanto você; Ninguem nunca havia me transformado em música e nunca havia sido cantada por uma voz tão deliciosa quanto a sua. Ninguem nunca havia me olhado com tanto amor, tanta compaixão no olhar quanto você, ao dizer…”.
Antes que eu pudesse completar o texto, ele me olhou no fundo dos olhos, dentro de mim, dentro do meu coração, e dissemos juntos “eu te amo”. 
Sem hesitar, nos beijamos com tanta precisão, com tanta intensidade, mas junto havia uma suavidade. O olhei com um sorriso esboçado no meu rosto encantado, e vi então, que dos seus olhos caíam lágrimas doces, lagrimas de felicidade, lagrimas de amor. Olhei no fundo do seus olhos meigos e úmidos, e li no seu olhar, vi no fundo dos seus olhos, a explicação do que é amor. O tal do amor, é algo indescritível, por isso ninguém nunca ousou explicar com precisão ou detalhadamente. Amor é algo tão imenso, que não existe nenhum palavra capaz de descrever, explicar. Amor é algo tão sagrado, que seria um pecado explicar. 
Quando vi aquelas lágrimas doces, senti uma coisa indescritivel, devia ser o tal amor. Senti um amor tão grande, senti o tal amor percorrendo meu corpo, o tomando nos meus braços, e então, o abraçei forte, intenso, o abraçei com amor.
Concluí: Diferentemente do que pensam, o amor não está em grandes gestos. Mas sim, o grande amor está em simples gestos. É numa troca de olhares, de saliva, de palavras, que descobrimos o que é amor. Só descobrimos finalmente, o que é amor, quando amamos. 

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Relato do Primeiro Beijo


Ela não sabia o que ele iria fazer. Ela estava nervosa. Ele estava nervoso. Se olharam. Riram. Se fitaram em soslaio. 
Estava frio e era meu primeiro encontro. Eu estava nervoso. Estava a esperando á muito tempo. Sentado naquela mesa na area de alimentação do shopping, estava realmente pensando o que fazer se meu cabelo começasse á cheirar á hamburger.
Depois de uma hora, a vejo sorrindo em minha direção. Por que ela está sorrindo? Por que ela não está nervosa? Só sou eu que estou com essas malditas “borboletas no estomago”? Por que eu estou tão nervoso? Ela está se aproximando. O que eu faço? Sorrio? A beijo? A abraço? 
E involuntariamente corri em sua direção e a abraçei. Pousei o rosto em meio ao seu cabelo que cheirava á manga recém-colhida, e sorri, calmo por um milessímo de segundo, por a ter em meus braços.
Sorri. Ela sorriu. Silêncio. O que faço?
Sentamos de novo na mesa da área de alimentação, e começamos a conversar.
Ela sorria muito. Do que ela sorria tanto? Por que ela sorria tanto? Ela ria? Ria de mim? Ria de quê? 
E, sutilmente, antes que eu pudesse perceber, ela pousou sua mão gelada na minha, e enroscou seus dedos nos meus. Ela sorriu (novamente) e disse em tom de riso “Como sua mão sua!” 
Lógico que ela estava suando, alias, como poderia a sua mão não estar suando? Estava ansioso, nervoso, sem saber o que fazer, o que falar, do que rir, e como consequencia, minha mão estava suando.
Sem soltar da minha mão suada, ela se levantou e me convidou para ir ao cinema. Fomos.
Ao entrar na sala escura, podia ver devidamente sua silhueta procurando uma poltrona. Ela ria descompromissada, sorria a todo o momento, por qualquer motivo. 
- Que tal aqui? - ela sorriu, é claro.
Sentamos em meio àquela escuridão confortavel. 
Eu queria fazer algo, eu queria tampar aquele sorriso com a minha boca, eu queria beija-la. Queria saber se seus lábios eram tão gelados quanto suas mãos. Queria saber se sua boca tinha gosto de manga, igual ao cheiro dos seus cabelos. Mas eu não saberia o que fazer. 
De repente a grande tela se iluminou á nossa frente, e o filme começou a rodar.
Uma comédia-romântica legendada. Se não fosse pela parte legendada, seria muito clichê.
Na primeira parte de comédia, ela riu. Eu ri. Eu não ri somente pelo filme. Ri de nervosismo, ri meio engasgado.
Depois de várias tentativas falhas, comecei a assistir o filme. Sem perceber, ela veio com ímpeto ao meu pescoço e beijou suavemente. Seu lábios gelados começaram a subir todo meu pescoço com delicados -e quase intocavéis- beijos. Senti um tremor percorrer meu corpo, uma bomba de adrenalina foi jogada no meu corpo e as borboletas voltaram á voar ferozmente no meu estomago. Não sabia o que fazer, apenas assenti e senti seus lábios gelados na minha pele quente. 
Percorreu seus lábios no meu pescoço, e parou no meu ouvido. Sussurrou algo que eu não entendi, e continuou o trajeto de beijos até a minha boca. 
Ao selar teus lábios com os meus, ela colocou tua língua dentro da minha boca e começou á mexe-la. Eu não sabia o que fazer, aonde botar a língua, aonde colocar a mão. Ela colocou a mão na minha nuca. Colocou a língua na minha. Aonde eu botava a mão? Na tua cintura? No seu cabelo? No seu rosto? Na perna? Como a beijaria certo? Virava a cabeça? Tocava aonde? O que fazia com a língua? A mexia para o norte, sul, leste ou oeste? Aquele beijo parecia um código. Tantas informações de uma vez só, misturada a aquela adrenalina, medo, insegurança, nervosismo. Por que eu estou pensando tanto? Tenho que parar de pensar e simplesmente a beijar. Menina, por que tu tem que beijar tão complicado? Me diga garota, por que tua língua tem que se mexer tanto?
Ela parou de me beijar, e sorriu. Olhou para mim e soltou uma risada relaxante. Por que ela riu? Será que não gostou? Por que? Será que fiz algo errado?
- Desculpa, não sou muito bom nisso. - Eu disse desconcertado.
- Que isso! - Ela soltou outra de suas risadas despreocupadas- Você aprende!
Então ela continuou me ensinando mais. Continuamos nos beijando. Eu era atrapalhado e ela gostava disso. Ela tinha códigos e eu gostava disso.

terça-feira, 28 de junho de 2011

Ti e Tu, Norte ao Sul.

Ah, é tu quem me conheces de verdade. Me conhece mais profundamente do que qualquer outro já me conhecera. Tu conhece minhas manias loucas e meus segredos. Conheces tudo de mal e ainda continua me amando. Tu é quem ri e que me embala. É de ti que eu tenho um ciúmes absurdo. Não te conto nada, porque se soubesse iria se irritar com a imensidão enorme do meu ciúmes. É tu quem moras na minha mente, está cravado no meu coração e tatuado na minha pele clara. É tu a unica fonte de inspiração para meus contos reais, e irreais. É tu quem dorme toda noite comigo, nos meus pensamentos. Ah, mas se tudo que eu imaginasse se projetasse na realidade, tu realmente iria toda noite dormir comigo, toda manhã acordar comigo, toda tarde escrever comigo. É tu a caneta do meu papel, as palavras dos meus textos, o ar do meu pulmão. Estou escrevendo “tu e ti” e me lembrando do Renato Russo, e de como tu gostas dele. É tu quem eu vejo nos meus sonhos, nos meus devaneios. É tu quem tem o queixo mais bonito do país e o sorriso capaz de iluminar a cidade inteira. É tu quem me acolhe quando estou triste e então cuidas de mim com tua fala mansa. É a tua voz que me cobre antes de dormir e me acalma para que eu tenha uma noite de sonhos contigo. É tu quem me irrita ás vezes e eu fico quieta, sei que tu percebes. Não é joguinhos e eu não gosto de joguinhos. Fico quieta porque sei que tu percebes e compreende. Ah, quando não falo contigo dá uma tempestade fria no meu pequeno coração, mas quando podemos nos falar tu me aquece. Me sinto em casa, me sinto confortavél, me sinto contigo. É só tu que tem aquele cheiro tão bom. Consigo sentir teu cheiro enquanto estou no Norte, e tu estas no Sul. Consigo te querer mesmo sem te ver por tanto tempo. Ah, falando em tempo: Junto á ti, um dia passa em uma hora. Longe á ti: Cada dia passa em uma semana. Como consegues ser causador de tantos efeitos? Tu consegue controlar o tempo, meu coração e até as sensações. Tu causa efeitos bons em mim. Teu sorriso me acalma, tua voz me aquece a alma, teu jeito me faz querer viver, e mesmo longe a ti, só sei te querer.

Conceito sobre o amor.


 Acordar cedo, tirar a roupa calmamente e meio sonolenta, com os cabelos ainda armados, guardar o amor e a dor numa caixinha pequena e delicada, e tomar um banho quente.
Enfiar a cara na água quente e deixa-la correr pelo o corpo nu e a mente vestida. Mente vestida de tristeza e rancor, por mais que eu quisesse me livrar dele, ele não saia dos meus pensamentos, aquela estúpida briga que tivemos sexta-feira á noite não saia da minha cabeça.
Você sai do banho e com a toalha úmida rodando seu corpo, vai até a cozinha e coloca dois pães na torradeira, e aguarda.
Aí você pensa em tomar alguma taça de vinho, mas se lembra que ainda são oito horas da manhã e o certo seria um copo de leite frio.
E então você vai até a mesinha-de-centro e hesita em pegar um cigarro, mas se lembra que prometeu á si mesma que iria ter um pulmão vermelho.
Você desiste, e agora tem em mãos, um pote de creme hidratante.
Você passa pelo o corpo inteiro, dos pés frios até o rosto marcado, delineando seu corpo, e com os pensamentos conturbados correndo na sua mente.
 Aí você sente um cheiro estranho. Não é o cheiro dele, que toda hora tu sentes como uma forte lembrança. É cheiro de queimado. Torrada queimada.
E então dei um pulo surpreso da cama, e corro imediatamente até a cozinha bagunçada: cascas de ovos espelhados pela pia, uma mancha de achocolatado na mesa, e para minha surpresa, uma figura que não pertence á minha cozinha. 
Uma rosa avermelhada, bem no vão da porta. Não apenas avermelhada, mas sim uma rosa tão vermelha quanto o sangue, parecia ter sido pintada por sangue. Um vermelho-paixão, um vermelho bonito de se ver.
Abri a porta para pegar a rosa, e dentre o vão vi um pedaço de papel no fim do caule da rosa. Parecia ter sido escrito por alguém com muita pressa, as letras borradas e mal caprichosas diziam “vá para a portaria”.
Tive um impulso inconsciente de sair correndo até a portaria, mas parei e deduzi que não seria agradavel fazer isso. Primeiro porque eu ainda estava nua e lambuzada de hidratante, segundo, porque a torrada ainda estava virando um carvão e sujando toda a torradeira.
Com um ponto de interrogação marcando meu rosto, corri rapidamente para matar minha curiosidade: depois de tirar a torrada/carvão da torradeira, corri até meu quarto e coloquei em um único movimento o vestido de algodão que havia separado para ir até a biblioteca municipal.
Enquanto ia atá a portaria, desci as escadas prendendo meus cabelos dourados no alto da cabeça. 
Ao chegar na portaria, vi o seu Zé calmamente sentado na sua cadeira velha que fedia á mofo, e enquanto ele segurava seu café quente na mão esquerda, com a mão direita separava as cartas dos moradores do prédio. 
- SEU ZÉ! - Gritei com um tom de desespero desnecessário. Maldita ansiedade.
-Ora menina, o que houve? - Ele pareceu um pouco assustado com o grito, mas se acalmou por ter visto que era eu.
-Disseram que era para vir até a portaria. -Fui objetiva.
-Disseram para você ir até o táxi que está te esperando aí fora.
Fiquei extremamente surpresa, e então, saí curiosa na rua, procurando o tal táxi.
Biiiii Biiiiii.
Segui com o olhar, o som da buzina. O táxista parado do outro lado da rua acenou para mim, com um gesto dizendo “venha aqui”. E eu fui, receosa.
-Me disseram para te levar ao café. - O táxista velho e barbudo, com os cabelos grisalhos e a fala mansa, disse calmamente.
Entrei no carro receosa e duvidosa, mas o que teria a perder?
Ao chegar no café, me dirigi até o balcão de mármore, e antes que eu pudesse indagar algo, o atendente disse: a mesa que guardaram para a senhora. - E o jovem apontou rapidamente para uma mesa no canto do café. Uma mesa como as outras, só que nela havia um cappuccino, duas torradas e um bilhete me esperando.
Caminhei confusa até a mesa. Me sentei para comer, alias, estava morrendo de fome. Enquanto tomava o cappuccino na xícara quente, abri o envelope pequeno, e dentro dele havia um pequeno bilhete com uns números, como se fosse senha do banco, senha de fila de espera.
Depois de saborear o delicioso café-da-manhã, voltei até o táxi.
Imaginei que ele iria me levar de volta para casa, mas para minha surpresa, ele estacionou em frente á livraria municipal, e disse: "leve esta senha até a Dona Carla, da biblioteca."
Não perguntei nada, apenas assenti. Qual seria o mal?
Entrei na biblioteca e fui logo até a bibliotecária, e perguntei sobre a tal Dona Carla.
"Eu mesma", ela disse com um sorriso simpático.
 Sem dizer mais nada, lhe entreguei o bilhete com a senha, e após analisar rapidamente, ela pediu para que eu aguardasse.
Não demorou um minuto, ela voltou com cinco livros nas mãos, todos escritos por Mario Quintana, ela os colocou nas minhas mãos, e disse sorrindo: "Reservaram esses livros para você, disseram ser seus preferidos, espero que goste. Pode entregar no mês que vem". Antes que eu pudessse lhe  pedir explicações, ela se virou e foi embora.
Fiz o mesmo, me virei e voltei até o táxi. 
Mais uma vez, o táxista não me levou para casa, mas sim, parou na frente de uma floricultura pequena e aconchegante, e disse "Vá até o balcão e se apresente".
Sem entender nada, assenti e fiz o que ele pediu.
Entrei na floricultura pequena e cheirosa, cheia de todos os tipos de flores: das mais belas ás mais estranhas, todas com um cheiro maravilhoso, uma fragrância hipnotizante. 
Cheguei até o balcão de madeira, e me apresentei para uma senhora velhinha, que em seguida, sorriu para mim: "Oh sim, mandaram te entregar isto" E ela colocou em minhas mãos, um buquê de rosas extremamente vermelhas, vermelhas-paixão. Provavelmente as mesmas rosas que aquela que estava no vão da minha porta. 
Sem reação, apenas sorri feliz e tomei as rosas de seus braços enrugados. 
Ao voltar para o táxi, ainda sem saber o que estava havendo, somente fiquei observando o movimento das pessoas janela à fora. Havia um casal abraçado no ponto de ônibus, ela sorria conforvel com a cabeça em seu ombro, enquanto ele a cobria com seus braços. E naquele momento, me veio a resposta desse dia insólito, me lembrei dele. Será que era ele quem planejou todas essas surpresas? Será que ele se arrependeu de ter gritado comigo ao telefone, e agora, está se redimindo com todas essas surpresas lindas? Será que agora, o táxista irá me levar até ele, e nós iremos nos abraçar, e ficaremos pedindo desculpas baixinho um para o outro? 
Mas, para acabar com a minha quase-epifania, o táxista parou o carro em frente ao meu apartamento.
-Até mais menina! -Ele deu um sorriso, e apontou para a porta como se dissesse "já sabe por onde é a saída".
-Mas...É só isso? - Perguntei confusa.
-Sim. Você poderia ir logo? Tenho que buscar uma senhora antes que a peça termine, e o teatro feche. - Ele disse apreensivo.
-Oh, desculpe. - E então, saí do carro.
Sem cumprimentar o Seu Zé, subi rapidamente pelas escadas de marmore, pisando com raiva em cada degrau, e senti aquele quentinho de lágrimas umedecendo meus olhos verdes. Duas bolinhas de gude largadas dentro de duas piscinas. Ele jogava bolinha de gude. Oh droga, por que eu tenho que ficar lembrando dele? Meu dia já estava feliz antes de que eu tivesse aquela miníma esperança de merda de que ele tivesse se arrependido. 
Ao chegar no apartamento, nem precisei me preocupar em destrancar a porta, ela estava aberta. Provavelmente eu havia esquecido de tranca-la. Bastou colocar a mão em cima da maçaneta e fazer uma minúscula força, que ela já se abriu.
Entrei na cozinha bagunçada e toda suja, e deixei meus presentes anonimos em cima da mesa. Sim, eu já estava chorando, discretamente.
Quebrei minha promessa de pulmões vermelhos e um coração puro. Meu coração já está todo ferrado, minha esperança estilhaçada, que se dane, ferrarei com o meu pulmão também!
Peguei o cigarro, e fui até a sacada. Fitando em vão o céu ensolarado, fiquei relembrando da nossa última conversa. Mas que bobeira nossa, brigar por ciúmes.
Eu, que sempre achei ciúmes uma coisa meiga, protetora, algo que dissesse "Ei, ela é minha menina, só minha." ou até um medo de ser substituído, acabou acabando com nossa felicidade, com a sua menininha.
No meio das minhas lágrimas, soltei uma risada sem graça, um riso amarelado. Como pude ser tão idiota? Deixar que uma conversa enciumada no telefone acabasse com sete meses de pura felicidade e troca de amor? Como pude deixar tudo acabar por tão pouco? Não. Não vou deixar acabar assim tão fácil. Sempre digo que você desiste fácil. Mas eu não.
Isso aí, vou jogar esse cigarro no cinzeiro e lutar por um coração e um pulmão limpo e puro.
Me levanto decidida e caminho rapidamente em direção ao meu quarto: lavar o rosto, limpar as lágrimas, colocar um casaco e irei decidida atrás do meu amor.
E então, a caminho do quarto, sinto um cheiro leve de jasmim no ar. Aquele cheiro de incenso que eu sempre acendia na casa dele. A casa dele sempre tão bagunçada e fedendo á pizza calabresa, eu tentava disfarçar aquele odor culinário com uns incensos que eu trazia para sua casa.
Mas ao entrar no quarto, vi algo diferente. Vi minhas roupas amontoadas e socadas em cima da cama, algumas camisetas de personagens infantis que eu adorava estavam jogadas pelo o chão, tinha pares de meia perdidos pelo sapateiro, a bagunça tipíca e normal de sempre. Mas em cima da minha pilha de livros que ficavam na minha cabeceira, estava um dos meus incensos de jasmim acessos.
Confusa, me dirigi até o banheiro do quarto.
Cansada desses joguinhos anonimos e dessa confusão, abri a porta em um único movimento.
E lá estava ele, com a cara culpada me fitando, seus olhos negros-penetrantes estavam marejados, e ele disse com a voz baixa e receosa:
-Você bagunçou minha vida, minha cabeça, me confundiu, me virou do avesso, fez a completa transformação na minha casa, e a deixou com cheiro de jasmim. Achei justo vir descontar e fazer o mesmo contigo.
O encarei perplexa, com uma raiva crescente. Então era tudo um joguinho para me confundir? Para tirar uma com a minha cara? Para tirar uma com a apaixonada e iludida?
Corri em direção a ele e comecei á bater no seu peito, começei a gritar palavras sem sentido e sem poder aguentar todos aqueles sentimentos explodindo feito granadas dentro de mim, começei á chorar. De raiva, de amor, de desesperança. Não sei.
E ele sem dizer palavra alguma, colocou a mão sob minha cabeça, e me fez pousar o rosto molhado de lágrimas no seu ombro. E continuou dizendo:
-...E você me fez ficar desde sexta-feira á noite chorando feito uma criança desolada sem um colo materno para chorar. Você me fez ficar sem poder dormir, com uma insonia dolorida. Você me confundiu. Mas você tambem me fez enxergar como é bom tirar o cheiro de calabresa de casa, me ensinou palavras novas que eu desconhecia. Você me ensinou a amar e ser amado. Você me fez retomar o gosto pela leitura e por desenhos animados. Alias, você me ensinou que não existe idade para pararamos de ser crianças. Você me ensinou á fazer paquecas. Você fez com que eu ficasse com milhões de sentimentos confusos, todos relacionados á você. Você me fez entender, o que é amor. E aprendi com você, que amar uma pessoa é não desistir dela, é sempre a querer, somente á ela. E mesmo que você mesma não siga seus proprios conceitos do que é o amor, eu estou aqui, seguindo seus conceitos, seus conselhos. Estou aqui, pedindo perdão por aquela sexta-feira á noite, e por qualquer sentimento ruim que eu tenha causado á você. Não é certo, uma pessoa que só me faz feliz, que só me quer feliz, sofrer. Eu te quero feliz, te quero alegre, te quero comigo.
-Você sabe onde está meu casaco vermelho? -perguntei, manhosa e chorosa, com a respiração abafada dentro do abraço dele.
-Por que?
-Eu vim para meu quarto para vesti-lo, e ir defender meu conceito sobre o amor. Estava indo para a sua casa. Eu não conseguiria viver sem você meu amor, eu não iria desistir tão rápido de você.
-Eu te amo. -Ele sorriu emocionado, com seus olhos marejados, não sabia se aquelas lágrimas eram  de tristeza, alivío, ou alegria.
-Eu te amo também.
E nos beijamos.





segunda-feira, 27 de junho de 2011

Saudades e observações.

 Hoje quando estava divagando em meus pensamentos, parei, e involuntariamente comecei á observar as pessoas tão vazias ao meu redor. Suas feições, seus traços, seus olhares. E procurava neles, em vão, somente um rosto. No meio daquela multidão, me sentia completamente sozinha e vazia sem você lá. Me sentia como se metade do meu ser estivesse longe, em outro lugar, em outra cidade, á quilômetros de mim.
Procurava em cada rosto, os seus traços.
Procurava ver no riso deles, o jeito que você fecha os olhos e expõe todos os seus dentes ao rir á vontade, e se deixa ser levado pela graça do momento. Por um quadrinho que viu, por uma bobeira que ouviu. O jeito embalante do seu riso, e o som chamativo.
Procurava em cada voz, tua fala mansa que me acalma, e que me dá paz. Procurava em cada voz, o efeito que tua voz causa em mim, a paixão que me acalma. É quase como uma música quando tu falas, e até tua respiração tem um ritmo delicioso de se ouvir. Fecharia os olhos, grudaria na tua pele quente e ficaria o dia inteiro ouvindo a música que sai da tua boca.
Continuo com a minha observação, e então, olho em soslaio para um casal à minha direita.
Estava frio, e era julho. 
Ele a abraçava e a tomava em teus braços, ela assentia com um sorriso reconfortado, e se protegia do frio dentro dos braços dele.
Aí senti um aperto no coração, senti uma saudade dolorida. Lembrei da tua pele quente esquentando o frio da minha pele. Lembrei do teu beijo manso, e a única coisa que eu queria era você.
Nem precisava estar me beijando, me abraçando, ou me tocando. A única coisa que eu queria naquele momento era te ver, era você.
Senti minha mão gelada. Minha mão tão pequena e gelada, precisando da tua mão quente e suada para se encaixar perfeitamente.
Em um todo, precisava somente de ti. Inteiro. Comigo. Já.
Foi então, relembrando tua pele macia, da tua voz cantando atrapalhado Adriana Calcanhotto, do teu jeito meigo de rir dos meus filmes infantis, foi então, que eu cansei de ficar me torturando de saudades, e de ser masoquista.
Peguei meu telefone e te liguei.
A saudade estava me causando uma abstinencia enorme, estava ansiando internamente por ti. Meia trêmula -de frio e abstinência- te liguei.
E ao ouvir tua voz manhosa de sono no outro lado da linha, senti um alívio instantâneo, um jorro de paz, e senti meu coração borbulhando de amor.
-Te acordei amor? -perguntei culpada.
-Acordou sim amor.- Que voz!
-Desculpe...Mas é que eu estou com muitas, muitas saudades mesmo!
Agora sim, me sentia melhor. Me sentia inteira. Me sentia contigo.

domingo, 26 de junho de 2011

Propostas


Aí tem horas que dá vontade de te telefonar só para dizer: “vem cá baby, e fluí no interior da minha boca, na superfície da minha pele gelada e carente de calor humano, especialmente do seu calor. Vem baby, como já dizia Caio Fernando, e fluí”.
Podemos fugir, pegar um trem sem saber seu destino, e se faltar dinheiro podemos cantar cazuza (em ritmos diferentes) na rua, e ganhar uns trocados para comer coxinha na padaria mais próxima.
 Podemos ficar acordados a madrugada inteira e observar juntos o dourado do céu no sol nascente, e mescla rosada que as nuvens fazem no meio do dourado.
Se a maré subir, pegaremos nosso barquinho e voltaremos para o início, ou pularemos do barquinho e remaremos contra a corrente.
Se a luz acabar, você pode me iluminar com o seu olhar cheio de brilho e luz.
Sei lá, podíamos fugir e só voltar depois de uma semana, com a cara inchada e o pescoço marcado, rindo em vão e se olhando apaixonado.
Podíamos ir numa sala de espelhos, e eu ia te fazer enxergar o quão -extremamente- lindo você é.
Eu poderia morder seu queixo áspero até arrancar um pedaço, e você continuaria com os seus ataques vampirescos.
 Poderíamos um dia qualquer, marcar para nós pararmos de sonhar e realizar cada item da nossa lista imaginaria -e ainda não acabada- de “Coisas para fazermos juntos”. Ou poderiamos continuar sonhando e completando a lista, idealizar nossa rotina daqui á anos, ou sonhar cada vez mais alto, baixo, possivel, impossivel, improvavel, provavel…
Então numa noite fria de julho, eu te ligaria com propostas loucas de fugas noturnas, pedindo para nós nos encontrarmos e saírmos por ai, poderíamos caminhar por uns quarteirões fugir num trem sem destino, roubar um navio pirata, ir de nave para a lua e conhecer o sistema solar pessoalmente, pular de para-quedas, nadar num lago frio, ler todos os livros de uma livraria e sair sem comprar nada, assistir todos os filmes do cinema, jogar todos os seus jogos de tabuleiro e assistir todos aos meus musicais, inventar receitas: doces salgados, salgados doces. Plantar flores e fazer um jardim, com roseiras e lírios.
Poderíamos fazer o que quiséssemos, você só teria que aceitar minhas propostas malucas e de loucuras, cheias de consequências, mas que vem carregadas de sentimentos deliciosos: uma loucura prazerosa e libertadora.
Sei lá, as vezes dá vontade de te telefonar e fazer várias propostas loucas. 
Mas a proposta mais importante: quer realizar, um dia, todas elas?