terça-feira, 28 de junho de 2011

Conceito sobre o amor.


 Acordar cedo, tirar a roupa calmamente e meio sonolenta, com os cabelos ainda armados, guardar o amor e a dor numa caixinha pequena e delicada, e tomar um banho quente.
Enfiar a cara na água quente e deixa-la correr pelo o corpo nu e a mente vestida. Mente vestida de tristeza e rancor, por mais que eu quisesse me livrar dele, ele não saia dos meus pensamentos, aquela estúpida briga que tivemos sexta-feira á noite não saia da minha cabeça.
Você sai do banho e com a toalha úmida rodando seu corpo, vai até a cozinha e coloca dois pães na torradeira, e aguarda.
Aí você pensa em tomar alguma taça de vinho, mas se lembra que ainda são oito horas da manhã e o certo seria um copo de leite frio.
E então você vai até a mesinha-de-centro e hesita em pegar um cigarro, mas se lembra que prometeu á si mesma que iria ter um pulmão vermelho.
Você desiste, e agora tem em mãos, um pote de creme hidratante.
Você passa pelo o corpo inteiro, dos pés frios até o rosto marcado, delineando seu corpo, e com os pensamentos conturbados correndo na sua mente.
 Aí você sente um cheiro estranho. Não é o cheiro dele, que toda hora tu sentes como uma forte lembrança. É cheiro de queimado. Torrada queimada.
E então dei um pulo surpreso da cama, e corro imediatamente até a cozinha bagunçada: cascas de ovos espelhados pela pia, uma mancha de achocolatado na mesa, e para minha surpresa, uma figura que não pertence á minha cozinha. 
Uma rosa avermelhada, bem no vão da porta. Não apenas avermelhada, mas sim uma rosa tão vermelha quanto o sangue, parecia ter sido pintada por sangue. Um vermelho-paixão, um vermelho bonito de se ver.
Abri a porta para pegar a rosa, e dentre o vão vi um pedaço de papel no fim do caule da rosa. Parecia ter sido escrito por alguém com muita pressa, as letras borradas e mal caprichosas diziam “vá para a portaria”.
Tive um impulso inconsciente de sair correndo até a portaria, mas parei e deduzi que não seria agradavel fazer isso. Primeiro porque eu ainda estava nua e lambuzada de hidratante, segundo, porque a torrada ainda estava virando um carvão e sujando toda a torradeira.
Com um ponto de interrogação marcando meu rosto, corri rapidamente para matar minha curiosidade: depois de tirar a torrada/carvão da torradeira, corri até meu quarto e coloquei em um único movimento o vestido de algodão que havia separado para ir até a biblioteca municipal.
Enquanto ia atá a portaria, desci as escadas prendendo meus cabelos dourados no alto da cabeça. 
Ao chegar na portaria, vi o seu Zé calmamente sentado na sua cadeira velha que fedia á mofo, e enquanto ele segurava seu café quente na mão esquerda, com a mão direita separava as cartas dos moradores do prédio. 
- SEU ZÉ! - Gritei com um tom de desespero desnecessário. Maldita ansiedade.
-Ora menina, o que houve? - Ele pareceu um pouco assustado com o grito, mas se acalmou por ter visto que era eu.
-Disseram que era para vir até a portaria. -Fui objetiva.
-Disseram para você ir até o táxi que está te esperando aí fora.
Fiquei extremamente surpresa, e então, saí curiosa na rua, procurando o tal táxi.
Biiiii Biiiiii.
Segui com o olhar, o som da buzina. O táxista parado do outro lado da rua acenou para mim, com um gesto dizendo “venha aqui”. E eu fui, receosa.
-Me disseram para te levar ao café. - O táxista velho e barbudo, com os cabelos grisalhos e a fala mansa, disse calmamente.
Entrei no carro receosa e duvidosa, mas o que teria a perder?
Ao chegar no café, me dirigi até o balcão de mármore, e antes que eu pudesse indagar algo, o atendente disse: a mesa que guardaram para a senhora. - E o jovem apontou rapidamente para uma mesa no canto do café. Uma mesa como as outras, só que nela havia um cappuccino, duas torradas e um bilhete me esperando.
Caminhei confusa até a mesa. Me sentei para comer, alias, estava morrendo de fome. Enquanto tomava o cappuccino na xícara quente, abri o envelope pequeno, e dentro dele havia um pequeno bilhete com uns números, como se fosse senha do banco, senha de fila de espera.
Depois de saborear o delicioso café-da-manhã, voltei até o táxi.
Imaginei que ele iria me levar de volta para casa, mas para minha surpresa, ele estacionou em frente á livraria municipal, e disse: "leve esta senha até a Dona Carla, da biblioteca."
Não perguntei nada, apenas assenti. Qual seria o mal?
Entrei na biblioteca e fui logo até a bibliotecária, e perguntei sobre a tal Dona Carla.
"Eu mesma", ela disse com um sorriso simpático.
 Sem dizer mais nada, lhe entreguei o bilhete com a senha, e após analisar rapidamente, ela pediu para que eu aguardasse.
Não demorou um minuto, ela voltou com cinco livros nas mãos, todos escritos por Mario Quintana, ela os colocou nas minhas mãos, e disse sorrindo: "Reservaram esses livros para você, disseram ser seus preferidos, espero que goste. Pode entregar no mês que vem". Antes que eu pudessse lhe  pedir explicações, ela se virou e foi embora.
Fiz o mesmo, me virei e voltei até o táxi. 
Mais uma vez, o táxista não me levou para casa, mas sim, parou na frente de uma floricultura pequena e aconchegante, e disse "Vá até o balcão e se apresente".
Sem entender nada, assenti e fiz o que ele pediu.
Entrei na floricultura pequena e cheirosa, cheia de todos os tipos de flores: das mais belas ás mais estranhas, todas com um cheiro maravilhoso, uma fragrância hipnotizante. 
Cheguei até o balcão de madeira, e me apresentei para uma senhora velhinha, que em seguida, sorriu para mim: "Oh sim, mandaram te entregar isto" E ela colocou em minhas mãos, um buquê de rosas extremamente vermelhas, vermelhas-paixão. Provavelmente as mesmas rosas que aquela que estava no vão da minha porta. 
Sem reação, apenas sorri feliz e tomei as rosas de seus braços enrugados. 
Ao voltar para o táxi, ainda sem saber o que estava havendo, somente fiquei observando o movimento das pessoas janela à fora. Havia um casal abraçado no ponto de ônibus, ela sorria conforvel com a cabeça em seu ombro, enquanto ele a cobria com seus braços. E naquele momento, me veio a resposta desse dia insólito, me lembrei dele. Será que era ele quem planejou todas essas surpresas? Será que ele se arrependeu de ter gritado comigo ao telefone, e agora, está se redimindo com todas essas surpresas lindas? Será que agora, o táxista irá me levar até ele, e nós iremos nos abraçar, e ficaremos pedindo desculpas baixinho um para o outro? 
Mas, para acabar com a minha quase-epifania, o táxista parou o carro em frente ao meu apartamento.
-Até mais menina! -Ele deu um sorriso, e apontou para a porta como se dissesse "já sabe por onde é a saída".
-Mas...É só isso? - Perguntei confusa.
-Sim. Você poderia ir logo? Tenho que buscar uma senhora antes que a peça termine, e o teatro feche. - Ele disse apreensivo.
-Oh, desculpe. - E então, saí do carro.
Sem cumprimentar o Seu Zé, subi rapidamente pelas escadas de marmore, pisando com raiva em cada degrau, e senti aquele quentinho de lágrimas umedecendo meus olhos verdes. Duas bolinhas de gude largadas dentro de duas piscinas. Ele jogava bolinha de gude. Oh droga, por que eu tenho que ficar lembrando dele? Meu dia já estava feliz antes de que eu tivesse aquela miníma esperança de merda de que ele tivesse se arrependido. 
Ao chegar no apartamento, nem precisei me preocupar em destrancar a porta, ela estava aberta. Provavelmente eu havia esquecido de tranca-la. Bastou colocar a mão em cima da maçaneta e fazer uma minúscula força, que ela já se abriu.
Entrei na cozinha bagunçada e toda suja, e deixei meus presentes anonimos em cima da mesa. Sim, eu já estava chorando, discretamente.
Quebrei minha promessa de pulmões vermelhos e um coração puro. Meu coração já está todo ferrado, minha esperança estilhaçada, que se dane, ferrarei com o meu pulmão também!
Peguei o cigarro, e fui até a sacada. Fitando em vão o céu ensolarado, fiquei relembrando da nossa última conversa. Mas que bobeira nossa, brigar por ciúmes.
Eu, que sempre achei ciúmes uma coisa meiga, protetora, algo que dissesse "Ei, ela é minha menina, só minha." ou até um medo de ser substituído, acabou acabando com nossa felicidade, com a sua menininha.
No meio das minhas lágrimas, soltei uma risada sem graça, um riso amarelado. Como pude ser tão idiota? Deixar que uma conversa enciumada no telefone acabasse com sete meses de pura felicidade e troca de amor? Como pude deixar tudo acabar por tão pouco? Não. Não vou deixar acabar assim tão fácil. Sempre digo que você desiste fácil. Mas eu não.
Isso aí, vou jogar esse cigarro no cinzeiro e lutar por um coração e um pulmão limpo e puro.
Me levanto decidida e caminho rapidamente em direção ao meu quarto: lavar o rosto, limpar as lágrimas, colocar um casaco e irei decidida atrás do meu amor.
E então, a caminho do quarto, sinto um cheiro leve de jasmim no ar. Aquele cheiro de incenso que eu sempre acendia na casa dele. A casa dele sempre tão bagunçada e fedendo á pizza calabresa, eu tentava disfarçar aquele odor culinário com uns incensos que eu trazia para sua casa.
Mas ao entrar no quarto, vi algo diferente. Vi minhas roupas amontoadas e socadas em cima da cama, algumas camisetas de personagens infantis que eu adorava estavam jogadas pelo o chão, tinha pares de meia perdidos pelo sapateiro, a bagunça tipíca e normal de sempre. Mas em cima da minha pilha de livros que ficavam na minha cabeceira, estava um dos meus incensos de jasmim acessos.
Confusa, me dirigi até o banheiro do quarto.
Cansada desses joguinhos anonimos e dessa confusão, abri a porta em um único movimento.
E lá estava ele, com a cara culpada me fitando, seus olhos negros-penetrantes estavam marejados, e ele disse com a voz baixa e receosa:
-Você bagunçou minha vida, minha cabeça, me confundiu, me virou do avesso, fez a completa transformação na minha casa, e a deixou com cheiro de jasmim. Achei justo vir descontar e fazer o mesmo contigo.
O encarei perplexa, com uma raiva crescente. Então era tudo um joguinho para me confundir? Para tirar uma com a minha cara? Para tirar uma com a apaixonada e iludida?
Corri em direção a ele e comecei á bater no seu peito, começei a gritar palavras sem sentido e sem poder aguentar todos aqueles sentimentos explodindo feito granadas dentro de mim, começei á chorar. De raiva, de amor, de desesperança. Não sei.
E ele sem dizer palavra alguma, colocou a mão sob minha cabeça, e me fez pousar o rosto molhado de lágrimas no seu ombro. E continuou dizendo:
-...E você me fez ficar desde sexta-feira á noite chorando feito uma criança desolada sem um colo materno para chorar. Você me fez ficar sem poder dormir, com uma insonia dolorida. Você me confundiu. Mas você tambem me fez enxergar como é bom tirar o cheiro de calabresa de casa, me ensinou palavras novas que eu desconhecia. Você me ensinou a amar e ser amado. Você me fez retomar o gosto pela leitura e por desenhos animados. Alias, você me ensinou que não existe idade para pararamos de ser crianças. Você me ensinou á fazer paquecas. Você fez com que eu ficasse com milhões de sentimentos confusos, todos relacionados á você. Você me fez entender, o que é amor. E aprendi com você, que amar uma pessoa é não desistir dela, é sempre a querer, somente á ela. E mesmo que você mesma não siga seus proprios conceitos do que é o amor, eu estou aqui, seguindo seus conceitos, seus conselhos. Estou aqui, pedindo perdão por aquela sexta-feira á noite, e por qualquer sentimento ruim que eu tenha causado á você. Não é certo, uma pessoa que só me faz feliz, que só me quer feliz, sofrer. Eu te quero feliz, te quero alegre, te quero comigo.
-Você sabe onde está meu casaco vermelho? -perguntei, manhosa e chorosa, com a respiração abafada dentro do abraço dele.
-Por que?
-Eu vim para meu quarto para vesti-lo, e ir defender meu conceito sobre o amor. Estava indo para a sua casa. Eu não conseguiria viver sem você meu amor, eu não iria desistir tão rápido de você.
-Eu te amo. -Ele sorriu emocionado, com seus olhos marejados, não sabia se aquelas lágrimas eram  de tristeza, alivío, ou alegria.
-Eu te amo também.
E nos beijamos.





Nenhum comentário:

Postar um comentário