domingo, 19 de junho de 2011

Surpresa

-Essa é sua terceira taça. - Eu dizia para mim mesma.
-Eu sei contar sozinha. -Respondi para mim mesma.
-Você tem que parar de beber. -Me auto-reprimi.
-Me deixa, cacete. -Reclamei comigo mesma.
Eu tinha que admitir que aquele vestido preto me deixou magra, isso é bom. Muito bom. Mas ainda sim, eu sentia aquela sensação na barriga, um frio, uma dor, uma ansiedade louca, torturante. Por mais bela que eu estivesse, ainda sim estava ansiosa por ele.
Já era minha terceira taça de vinho, e ainda assim não fez efeito. Estava tão ansiosa quanto antes de tomar aquelas taças.
Para ajudar a intensificar aquela dor no meu estomago, ele estava atrasado. Não apenas atrasado, mas estava quarenta minutos atrasado. 
Eu estava claramente atraente, depois de passar a tarde inteira com quilos de cremes no rosto, uma touca enorme no cabelo, e unhas vermelhas ao vento, teria de haver um resultado. 
E foi um resultado bom: Minha pele branca estava parecendo uma porcelana, e no espelho, pude ver no meu reflexo que o vermelho das minhas unhas combinavam com o vermelho que o batom havia espalhado em meus lábios. Estava linda, estava linda assim somente para ele, tive tanto trabalho somente para ele.
E finalmente ouvi -como sinos soando nos meus ouvidos- a busina do carro dele.
Meu primeiro impulso era correr desesperadamente até ele, entrar no carro, me jogar nos seus braços, explorar sua boca e sugar sua pele clara.
Senti minhas pernas querendo correr, mas então lembrei da taça em minha mão. Tomei mais um gole, e retomei minha postura. Com calma, pousei a taça avermelhada em cima da mesa cheia de papéis, papéis de rascunhos, poemas, textos, e todos com um mesmo titulo: ele.
Ao entrar no carro, estava com um grande sorriso estampando minha face, e ele estava tão neutro quanto uma folha de papel em branco. Em seguida, me curvei suavemente para selar nossos lábios, mas ele hesitou e se curvou para trás, e sem dizer uma só palavra, ele pisou no acelerador e seguiu caminho.
O trajeto todo estava quieto, estava tocando Beatles no rádio, e o único som que emitíamos era o da dublagem da música. Cada um cantando baixinho para si próprio, repetindo “Help me if you can”, e eu olhava em soslaio para ele, que fitava o transito sem mover um único músculo.
-Aonde iremos? -Quebrei o silêncio perturbador.
-Aonde você quer ir? - Perguntou ele, despreocupado.
-Uma pizzaria?
-Não quero pizza.
-Sushi?
-Não quero comer peixe.
-Assim fica difícil -havia uma ponta de irritação na minha voz- então não vamos para lugar nenhum.
-Calma, já sei aonde podemos ir.
-Aonde?
-Surpresa. 
E essa unica palavra, me deixou esperançosa. Aonde será que ele iria me levar no dia em que completaríamos um ano juntos? Não sei, mas apesar dessa frieza aparente, eu sabia que ele se lembraria que hoje era o nosso aniversario de namoro, de romance, de tanto dias, semanas, meses de felicidade. 
Mas essa fora a ultima palavra que ele tinha dito para mim até chegarmos até nosso destino, no caminho todo, ele apenas fitava as ruas escuras de São Paulo, e cantarolava baixinho e para si mesmo algumas músicas da rádio. 
Descemos do carro, e me deparei com o apartamento dele, um prédio grande de 30 andares pintados de verde escuro, com manchas escuras mostrando o mau-trato causado pelo tempo. Era isso? Ele não se lembrou do nosso aniversario de namoro? A surpresa dele era me trazer para seu apartamento? A frieza toda desta noite não resultou em droga nenhuma? 
Ele me pegou suavemente nas mãos, me levando até a portaria, e eu puxei bruscamente meu braço, e disse com a voz raivosa e um pouco alterada:
-Vou voltar para a casa, vou pegar um táxi, e não venha atrás de mim seu insensível. -E então enfiei a mão na pequena bolsa preta que eu havia trazido comigo, e fiquei satisfeita ao ver que tinha uma nota de vinte reais para pagar o táxi.
-Você está louca? - Ele me encarou perplexo.
Eu estava me virando para ir em direção ao ponto de táxi, mas parei, e encarei ele. Olhei ferozmente no fundo dos seus olhos castanhos, e perguntei com uma falsa calma:
-Você sabe que dia é hoje?
-Dia seis.
-Viu? Você não sabe nada de nós! Você não sabe nada de mim! Você nunca foi assim, mas agora você deu um ataque individualista, e está vivendo somente no seu mundinho. Continue assim, fique ai, sozinho, continue com sua frieza, até que seu coração vire um cubo de gelo e trinque, assim quem sabe você dá valor para quem te ama, para quem fica horas se arrumando para você, para quem fica contando os dias para te ver, para quem imagina seu futuro incluindo você nele, para quem sempre te amou, e só pediu uma coisa em troca: o seu amor. Quem sabe você dá valor para mim. - E então eu me virei, sacando os vinte reais da bolsa.
Senti a mão fria dele agarrando meu punho com uma certa força, e me virei quando ele disse: 
-Ainda não disse o que significa esse dia seis. 
Eu o encarei confusa, e esperei até que ele complementasse:
-Venha aqui, que eu te explico o que significa.
Eu assenti com a cabeça, sem soltar uma sílaba sequer. E então ele pegou suavemente minha mão, e me levou até o elevador. 
Quando entramos na cabine pequena, sequer olhei para os botões, para o espelho, ou para a porta enferrujada que soltava um ruído agonizante quando fechava: apenas fiquei encarando ele, com uma magoa, uma raiva, visível no olhar.
-Sabe... -Ele começou dizendo baixinho, cabisbaixo- eu não sei que dia especificamente é hoje. Sei que é dia seis, sei que hoje faz um ano que estamos juntos.
-Muito meigo da sua parte lembrar disto. -Eu disse ironicamente- Isso é tudo? Posso ir embora agora?
E então, com um ruído agonizante, a porta enferrujada do elevador se abriu, dando vista para o terraço, no topo do prédio. 
No terraço, era possível ver a cidade inteira, todas as suas luzes da noite e suas formas. No centro do terraço, perto de um baú dourado e um grande vaso de rosas vermelhas, havia uma pilha de roupas de cama, com quatro travesseiros, dois cobertores e alguns livros espalhados por alí. No terraço não havia nenhum tipo de iluminação, apenas algumas velas espalhadas pelo o chão, perto do baú. No centro, havia duas cadeiras, postas uma em frente á outra.
-Não meu amor, você não pode ir embora agora. -Então ele caminhou calmamente, sorrindo, até as cadeiras- sente-se aqui.
Eu, completamente confusa, me sentei em frente á ele.
-Hoje, -ele começou a dizer suavemente, levando sua mão fria até os meus cabelos negros - faz um ano que estou com a mulher que mais me faz feliz. Hoje faz um ano, que estou sendo feliz, amado e completamente apaixonado por você. Hoje faz um ano, que estou com a maior fã de beatles...
E então, ele foi interrompido por três amigos dele, que saíram do elevador enferrujado cantando Real Love, a nossa música, os dois primeiros estavam tocando violão, e fazendo uma especie de segunda voz, enquanto o outro, vinha cantando com vontade a música. E eles pararam do nosso lado, tocando nossa música, tocando minha música preferida, enquanto ele continuava me fitando com uma paixão transbordando do seu olhar castanho-penetrante, e ele pegou suavemente na minha mão, e me levou até o baú.
-Faz um ano, que estou com a mulher que é apaixonada por rosas vermelhas, -e ele pegou o grande vaso e me entregou com um sorriso abobado estampado na face.
-Hoje, -continuou ele- faz um ano que estou com a mulher que é totalmente admirada pela a vista da cidade, a maior amante da noite paulista, das luzes noturnas urbanas, - e ele pegou suavemente na minha cintura com o braço direito, e apontou o braço esquerdo de forma expansiva para a cidade, para a grande vista do terraço- faz um ano, que estou com a maior fã de Caio Fernando Abreu - E ele abriu o pequeno baú dourado, que tinha uma aparência velha e usada, quando ele abriu o baú, eu vi que havia lá dentro os melhores livros do Caio Fernando, os livros que eu havia querendo faz tanto tempo, e ele me entregou o baú nas mãos, junto á um beijo delicado.
Ele estendeu um cobertor no chão, e salpicou os travesseiros por cima. Sorriu para mim, e se sentou no  cobertor, e esticou a mão, convidando-me para me sentar junto a ele. Me sentei com o corpo grudado ao dele, de uma forma que parecia que nossa silhueta se encaixava perfeitamente, com as mãos acariciando minha face, e os olhos me fitando encantadoramente, ele me disse:
- Estou á um ano, junto com a mulher mais bela do mundo, seu exterior é belissímo, e seu interior, é extremamente apaixonante:  a mulher que tem uns desejos tão diferentes, uns sonhos tão peculiares, umas manias tão engraçadas. Uma mulher, que tem tantos sonhos, tantas vontades, e quero realizar todos que estiverem ao meu alcançe. Estou á um ano, com a mulher que sempre quis dormir sob a luz do luar, e do céu iluminado por estrelas, com vista para a cidade inteira.
E então, ele se deitou, puxou consigo o segundo cobertor, nos cobrindo, e pousou sua cabeça em um dos travesseiros. Eu deitei ao seu lado, encaixei minha cabeça na curva do seu pescoço. Ele sussurou "Eu te amo", e eu fechei os olhos, sorri apaixonada, e disse "Eu te amo". 
Dormimos com as estrelas nos cobrindo. 


Real love - The Beatles <a href="http://www.youtube.com/watch?v=R7twIF8PWic?hl=en"><img alt="Play" src="http://www.gtaero.net/ytmusic/play.png" style="border:0px;" /></a>

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