quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Saberia


A noite era escura e ainda sim conseguia encontra-lo pelo tato. Conseguia encontrar-o pelo seu cheiro, que sentia tão de longe, tão forte, tão intenso. Que me tocava leve e percorria a curva do meu quadril, e senti suas costelas tremendo, como se estivesse rindo, rindo baixo, rindo feliz. Depois enrosquei as mãos dentre seus cachos avermelhados e levemente, senti sua respiração quente junto a minha, frente á frente, estavam os lábios, tão vermelhos e sedentos, seria a primeira vez que eles se tocariam. “Eu jurava que não iria fazer isso” Repetia mentalmente para mim mesma. Mas antes que pudesse tomar alguma atitude, senti o úmido dos seus lábios contra os meus, correspondi. E então a noite nos engoliu e eu o devorei.
Acordei enrolada nos lençóis de linho branco, enquanto tocava Jobim suavemente na sala-de-estar. Recolhi-me me deleitei com o cheiro dele no travesseiro que apoiava meu rosto avermelhado, o cheiro que havia tão bem provado e que agora traz um leve -grande- arrependimento. Não posso passar da segunda taça de vinho que caio em tentação. Mas justo com ele? Com meu melhor amigo? Não poderia imaginar como seria desde então, desde que trocamos nossas salivas, a fidelidade e confiança da nossa amizade estaria sob risco, tão maleável. 
Vesti-me e caminhei silenciosamente até a cozinha, onde pude ver sua silhueta e seu olhar em soslaio para mim, depois virou-se e esticou as mãos, segurando uma tigela amarelada: 
-Seu café-da-manhã. -Ele disse calmo, tão calmo quanto os dias que ia dormir em sua casa. Ficávamos até de madrugada conversando sobre os meus namorados e pedia conselhos amorosos para ele, depois caía em prantos ao lembrar-me dos que me fizeram sofrer, e dormia com os olhos úmidos no seu ombro. 
-Meu cereal preferido. -Sorri satisfeita, um pouco envergonhada. Outrora haviamos trocado tanto amor, e agora apenas palavras vazias.
-Te conheço desde sempre, lembra-se? -Ele disse com um quê de lógica.
-Se me conhecesse tanto, saberia. -Disse baixo, mas realista.
-O que?
-Nada, estava apenas pensando alto. 
-Diga, saberia o que? -Ele fitou-me insistente.
-Nada. - Disse encarando a tigela.
Ele atravessou a cozinha, e sem que eu percebesse, segurou meus braços e virou-me de forma que eu o olhasse em seus olhos:
-Diga. -Ele disse calmo.
-Esta noite foi muito estranha, esse café-da-manha está estranho, tudo está sendo estranho, ontem a noite estávamos rolando juntos e hoje você simplesmente me dá meu cereal preferido sem nenhum problema e conversa comigo como se ontem a noite eu viesse vindo ver A Bela e a Fera com você, e tivesse caído no sono, somente isso. E é estranho, não aconteceu isso, e era o certo ao acontecer. Estou um pouco confusa, aliás, completamente confusa. Que diabos está acontecendo? Não que eu queira que você me mime como se fossemos namorados, mas é estranho, não era para ter acontecido. Não quero que nada mude entre nós, eu te conheço á tanto tempo e…
-Não - ele interrompeu- Você não me conhece tão bem como diz. Se conhecesse, saberia.
-Saberia o que? 
Ele fitou-me derrotado, e disse em forma de suspiro: 
- Que eu te amo. 
Em seguida, senti aquela maciez úmida novamente contra meus lábios, e coloquei meus braços envolta do seu pescoço, sussurrei vencida: “Saberia que eu te amo”.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Leitura dos olhos.





Quando ela segura a taça de vinho sorrindo á toa, e olha involuntariamente para mim, vejo algo a mais naqueles olhos escuros. Aqueles olhos tão fundos e misteriosos, como aquela parte do oceano onde afundou o Titanic. Quantos segredos aqueles fundo oceano negro guarda? 
E é involuntariamente que vejo seus olhos gritando o que sua boca -sempre cor de vinho tinto- nunca tem coragem de dizer, mas aquele seu pequeno coração sempre grita para seu interior. Grita alto, profundo, grita até a garganta sangrar, mas mesmo assim, sua boca nunca consegue pronunciar. 
Mas aqueles olhos negros diz claramente o que quer. Quando aqueles olhos sempre me olhando em soslaio se cruza com meu curioso olhar, vejo uma umidade tornando aquele oceano negro um verdadeiro oceano.
Ela diz coisas engraçadas, como se fosse a maior piadista da cidade. Dança nos bares e chama todos os rapazes para lhe acompanhar numa dança agitada, ou lenta. Enfim, nem imaginam que ao inves de se jogar na pista de dança, ela se joga no sofá, afunda sua face numa das camisetas que eu deixei em sua casa, e relembra -amargamente- o meu cheiro - que ela sempre gostara, e sentia saudades-. 
Quem a vê sempre cozinhando para suas visitas, massas, doces, salgados, sempre com o avental sujo e um sorriso esboçado no rosto, nem imagina que seu jantar é enlatados e sempre encomendados. Quem a vê sempre descobrindo e desenvolvendo novas receitas, nem imagina nossos sabados á noite. Jantares trazidos por motoristas e produzidos após uma ligação. Não perdíamos tempo cozinhando, usamos esse tempo pra nos degustar, nos devorar. A cozinha ficava em segundo plano (ou como cenário, dependendo da situação).
Quem a vê sempre sorrindo com sua boca cor de vinho tinto, não lê seus olhos, que quando cruza com o meu, grita coisas que só o coração pode ouvir.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Pulmão


Ele estava sentado no banco branco em baixo das laranjeiras do parque da cidade, sem hesitar, ao ver mais um daqueles mapas de mortes, ao ler o jornal, ele acendeu um cigarro e o levou até a sua boca ressecada.
Ela chegou de mansinho, quieta e vestida de preto, sentou-se ao seu lado. Cochichou com seu halito quente na orelha fria dele:
-Me trague como um desses seus cigarros, quando fechas os olhos de prazer ao sentir a fumaça escurecer teu pulmão. Deixe eu ser seu vicio mortal. Me tenha, me use, enlouqueça e morra. Devagar. Titubeando. Morra me sentindo dentro do seu pulmão.
Ela sempre tinha as ideias mais loucas. Mas as mais prazerosas. (…)

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Casulo


-Tá frio, sente-se mais perto. -Ela disse com um gesto de chamada á ele.
-Assim está bom? - Ele sentou-se na cama, do lado dela.
-João, na infancia, você brincava de casulo? -Ela disse envolvida no cobertor laranja.
-Casulo? - Sua face se tornou um claro ponto de interrogação.
-Me abraçe. - Clara disse com a voz fraca, e a cabeça baixa.
Sem hesitar, João subiu calmamente na cama, e ao chegar perto dela, sorriu. O cheiro que seu corpo exalava era um atrativo, uma tentação irresistível para ele. Clara continuou com o olhar baixo, encarando o chão, e olhando em soslaio o sorriso satisfeito de João. Ele a abraçou de mansinho, mas milimetricamente afastado dela. Ela abriu os braços -para o susto dele- e o envolveu num abraço muito maior, muito mais apertado, e enrolou o cobertor entre os dois.
-Eis o casulo. -Disse João com um ar de pensador.
-Quem sabe, quando eu te soltar, você vire uma bela borboleta. 
-Prefiro ser uma larva pelo resto da vida, do que te tirar dos meus braços. - Não soou sedutor, mas sincero.