quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Odeio-te

Era seu segundo cigarro e eu já estava totalmente fora de lucidez. A forma que ele movia sua língua ao falar já incitava-me mil pensamentos de prazeres escondidos por trás dessa boca avermelhada, que era contornada por uma barba que pedia para roçar seu todo seu áspero contra minha maciez...
A forma que ele me olhava. Eu sei o que ele queria dizer, seus olhos eram mais explícitos que sua boca rítmica. A forma que me delineava com os olhos negros parecia carvão em brasa, ardendo de desejo.
Ele largou o cigarro no parapeito da sacada, e fitou-me abertamente. A luz do luar banhava-o branco, e refletia naquele traje tão formal, a luz cintilava em seu cabelo negro rebeldemente ondulado, e ele disse tão calmo quanto a noite sem estrelas que estava estampando o céu por trás dele:
-Posso saber por quê a dama de tão extrema formusura está sozinha na sacada?
Olhei-o inexpressível:
-Talvez pelo mesmo motivo que vossa senhoria esteja cuidando da vida alheia.
Ele sorriu com o canto esquerdo da boca, apenas levantando levemente, e soltou uma pequena risada -feito tosse - e tocou-me a face:
-Ora, vamos lá, eu a vi fitando-me em soslaio.
Ele disse com um certo ego, e eu apenas o encarei com um falso escárnio. Como desprezar aquele rapaz, que mais parecia homem no ato de falar, fumar, gesticular? Com aquele riso mau que me estremece entre as pernas e aquele gesticular tão atrativamente mau que mais parece devaneio.
-Será que uma dança faria a senhorita mudar seu ponto de vista sobre mim?
-Impossível, tua fala já é toda de más intenções.
Rapidamente, ele se aproximou de mim, e antes que eu percebesse, seus lábios estavam colados no meu ouvido, de ímpeto sussurrou com o hálito quente arrepiando-me delicadamente:-
-Ora, vamos. Não lhe farei mal...
*Assenti receosa, e logo, pegou-me pela cintura e colou-me no teu corpo . A pressão entre nossos corpos era tanta que podia sentir seu coração batendo forte no ritmo da música que vinha do salão de festas. Minha mão pousou na sua nuca pálida e cintilante da lua, e apenas por sentir a maciez da sua pele quente, fechei as pálpebras em deleite.
Depois de alguns passos, a música já havia parado de tocar, e éramos embalados unicamente pelo ritmo de nossos corações exaltados.
Embora ambos não admitissem, a cada passo, a cada pressão, a cada inusitado toque, nós queriamos mais e mais.
Rodopiou-me levemente pela sacada e logo roçou a barba áspera nas minhas bochechas coradas. Sorri ainda com as pálpebras em deleite , e enfiei a mão dentre seus cachos negros banhados por um branco cintilante. Logo suas mãos derraparam-se por minhas costas e pousei então meus lábios no seu queixo, e pude sentir o gosto másculo daquele áspero sedutor que a tanto tempo chamava-me para lhe sentir, lhe provar, lhe degustar, lhe devorar.
Logo, larguei-o e saí em um rodopio solitário, sorri ironica e ele correspondeu com seu riso-de-lado-esquerdo:
- Ainda odeia-me?
-Odeio-te.
Ele se aproximou de forma que eu ficasse outra sem saída a não ser seus lábios, perguntou em sussurro:
-Odeia-me?
Caminhei lentamente para trás, até colar as minhas costas contra o parapeito da sacada:
-Odeio-te.
Com os lábios á poucos centímetros do meu, eu respirava o ar quente que ele expirava, e continuou:
-Odeia-me?
Estiquei o braço sobre o parapeito e peguei o cigarro que ele havia pousado. E perguntou novamente, o mais perto possivel de mim:
-Odeia-me?
Pousei levemente meus lábios nos seus, permaneci levemente por algum tempo, e logo empurrei-o para longe de mim, e disse entre uma profunda tragada no seu próprio cigarro:
-Odeio-te.
Com certa decepção, nos encaramos por longos segundos, e ofereci seu cigarro para ele. Ele abaixou minha mão esticada, e disse seco:
-Estou tentando parar de fumar.
Aproximei-me mansa, e disse:
-Estou tentando para de te odiar.
Nos beijamos.

Nenhum comentário:

Postar um comentário